segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Aprendendo com o JOÃO

A graça de ser só

" Há pessoas que acham um absurdo o fato de padre não poder casar."

Ando pensando no valor de ser só. Talvez seja por causa da grande polêmica que envolveu a vida celibatária nos últimos dias. Interessante como as pessoas ficam querendo arrumar esposas para os padres. Lutam, mesmo que não as tenhamos convocado para tal, para que recebamos o direito de nos casar e constituir família.

Já presenciei discursos inflamados de pessoas que acham um absurdo o fato de padre não poder casar.

Eu também fico indignado, mas de outro modo. Fico indignado quando a sociedade interpreta a vida celibatária como mera restrição da vida sexual. Fico indignado quando vejo as pessoas se perderem em argumentos rasos, limitando uma questão tão complexa ao contexto do "pode ou não pode".

A sexualidade é apenas um detalhe da questão. Castidade é muito mais. Castidade é um elemento que favorece a solidão frutuosa, pois nos coloca diante da possibilidade de fazer da vida uma experiência de doação plena. Digo por mim. Eu não poderia ser um homem casado e levar a vida que levo. Não poderia privar os meus filhos de minha presença para fazer as escolhas que faço. O fato de não me casar, não me priva do amor. Eu o descubro de outros modos. Tenho diante de mim a possibilidade de ser daqueles que precisam de minha presença. Na palavra que digo, na música que canto e no gesto que realizo, o todo de minha condição humana está colocado. É o que tento viver. É o que acredito ser o certo.

Nunca encarei o celibato como restrição. Esta opção de vida não me foi imposta. Ninguém me obrigou a ser padre, e, quando escolhi sê-lo, ninguém me enganou. Eu assumi livremente todas as possibilidades do meu ministério, mas também todos os limites. Não há escolhas humanas que só nos trarão possibilidades. Tudo é tecido a partir dos avessos e dos direitos. É questão de maturidade.

Eu não sou um homem solitário, apenas escolhi ser só. Não vivo lamentando o fato de não me casar. Ao contrário, sou muito feliz sendo quem eu sou e fazendo o que faço. Tenho meus limites, minhas lutas cotidianas para manter a minha fidelidade, mas não faço desta luta uma experiência de lamento. Já caí inúmeras vezes ao longo de minha vida. Não tenho medo das minhas quedas. Elas me humanizaram e me ajudaram a compreender o significado da misericórdia. Eu não sou teórico. Vivo na carne a necessidade de estar em Deus para que minhas esperanças continuem vivas. Eu não sou por acaso. Sou fruto de um processo histórico que me faz perceber as pessoas que posso trazer para dentro do meu coração. Deus me mostra. Ele me indica, por meio de minha sensibilidade, quais são as pessoas que poderão oferecer algum risco para minha castidade. Eu não me refiro somente ao perigo da sexualidade. Eu me refiro também às pessoas que querem me transformar em "propriedade privada". Querem depositar sobre mim o seu universo de carências e necessidades, iludidas de que eu sou o redentor de suas vidas.

Contra a castidade de um padre se peca de diversas formas. É preciso pensar sobre isso. Não se trata de casar ou não. Casamento não resolve os problemas do mundo.

Nem sempre o casamento acaba com a solidão. Vejo casais em locais públicos em profundo estado de solidão. Não trocam palavras nem olhares. Não descobriram a beleza dos detalhes que a castidade sugere. Fizeram sexo de mais, mas amaram de menos. Faltou castidade, encontro frutuoso, amor que não carece de sexo o tempo todo, porque sobrevive de outras formas de carinho.

É por isso que eu continuo aqui, lutando pelo direito de ser só, sem que isso pareça neurose ou imposição que alguém me fez. Da mesma forma que eu continuo lutando para que os casais descubram que o casamento também não é uma imposição. Só se casa aquele que quer. Por isso perguntamos sempre – É de livre e espontânea vontade que o fazeis? – É simples. Castos ou casados, ninguém está livre das obrigações do amor. A fidelidade é o rosto mais sincero de nossas predileções.

Foto Padre Fábio de Melo

Padre Fábio de Melo é professor no curso de teologia, cantor, compositor, escritor e apresentador do programa "Direção espiritual" na TV Canção Nova.

3 comentários:

Diego Knopp disse...

Sensacional, de forma simples explica sua escolha de viver em Deus!

Paolo Knopp disse...

Simples no jeito de falar, mas tão profundo e sincero que passa a mensagem maior: AMAR! ..."ninguém está livre das obrigações do amor", ou seja, nossa liberdade, nossa felicidade estão atreladas ao amor (Jesus disse que amemos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos).
O tempo de castidade é o tempo para o casal aprender a se amar mais, permitir que seu namoro não esteja apenas condicionado ao sexo. Não queimar etapas como a descoberta do que o outro mais gosta, dos gestos de carinho, do trocar idéias, conviverem juntos em sociedade, admirarem um ao outro, etc. Assim, se no futuro, esta união, esta amizade, esta cumplicidade formada, for se transformar em matrimônio, haverá um casamento que não "acabará em solidão".
Mandou bem, mano. Lindo texto. Dava pra conversar por horas sobre ele. Reflitam bstante galera. Ele fala de início sobre vida sacerdotal, mas nos leva arefletir sobre nós!
Paz e Bem

Luiz Felipe disse...

"Ainda, que eu falasse a lingua dos homens ou a língua doas anjos, sem amor eu nada seria. Mesmo que possuisse o dom da profecia, conhecesse os mistérios da ciência e tivesse tanta fé que movesse montanhas, sem amor eu nada seria. (...)
(...) O amor é paciente, é benigno, não é invejoso, não é orgulhoso nem se invaidece; Não é grosseiro, não se irrita, não guarda rancor; Se entristece com a injustiça , mas se alegra com a verdade; Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor nunca acaba(...)
(...)No presente permanecem três coisas: fé, esperença e amor; Mas a maior delas é o amor." (Coríntios1 13, 1-2, 4-8, 13)
E com muito amor ,amo todos vocês ,Anjos da guarda.João

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